GT Gênero e Justiça Climática realiza série de webinários sobre adaptação climática inclusiva
No dia 29 de julho deste ano, uma ventania de mais de 100 quilômetros por hora atingiu o estado de São Paulo, deixando três mortos, dois deles no litoral paulista. Uma das vítimas, um homem que dormia próximo de um dos canais de Santos, foi arremessado pelo vento e não resistiu. Até a realização deste webinário, a polícia ainda não tinha descoberto seu nome.
Foi com esse caso que a jornalista Tatiane Matheus abriu sua fala no dia 25 de agosto, na realização de uma série de webinários que o GT Gênero e Justiça Climática do Observatório do Clima está promovendo para aprofundar o diálogo sobre a publicação Caminhos para um Olhar Inclusivo sobre Adaptação Climática. “A gente nem sabe se essa pessoa é uma pessoa racializada. Sabe-se que é um homem”, disse Tatiane, uma das organizadoras do livro. Para ela, esse é o retrato exato do problema que a publicação tenta enfrentar: pensar a adaptação climática exige colocar no centro corpos que normalmente são tratados apenas como mera estatística, quando são tratados.
O encontro reuniu quatro autoras em torno de três capítulos do livro, e os inscritos acompanharam um pouco do processo por trás de cada texto, os dados que sustentam os argumentos e as lacunas que ainda restam.
Pessoas em situação de rua
Tatiane assina alguns capítulos, entre eles, “Os invisibilizados na crise: pessoas em situação de rua e extremos climáticos”. Segundo os dados que ela levantou, 70% das pessoas em situação de rua no Brasil são homens, 13% são mulheres cisgênero e 3% são pessoas trans. O livro trabalhou com uma estimativa de cerca de 281 mil pessoas nessa condição, referência de um levantamento anterior do mesmo observatório ligado à UFMG; o número mais recente, já passa de 365 mil.
Ela trouxe exemplos de políticas públicas de outros países, como em Melbourne, na Austrália, onde um programa distribui ventiladores e kits de hidratação no verão, além de alertas por redes sociais sobre ondas de calor. “Sinceramente, eu fico imaginando: será que uma pessoa de rua tem um celular para poder ter essas notícias de redes sociais?”, questionou. Em Toronto, equipes móveis de saúde percorrem a cidade e o transporte fica gratuito em dias de calor extremo. Na França, a onda de calor de 2003 matou mais de 15 mil pessoas, majoritariamente idosos, e levou à criação de um plano nacional que inclui abrigos climatizados e mobilização de voluntários para verificar o bem-estar de quem está mais exposto.
Pessoas com deficiência
Marta Almeida Gil, socióloga e fundadora do instituto Amancay, contou como uma pesquisa feita ainda nos anos 1970, dentro do Projeto Rondon, mudou o rumo da sua carreira. Ao perguntar a mulheres cegas por que haviam perdido a visão, ela ouviu respostas carregadas de culpa: “Eu fiquei cega porque eu quebrei o resguardo”, diziam, referindo-se à crença de que sair da cama antes de completar quarenta dias de resguardo pós-parto causava cegueira. Para mulheres pobres, ficar quarenta dias de cama era simplesmente impossível.
Décadas depois, foram as enchentes do Rio Grande do Sul, em 2024, que a levaram a criar o projeto Resgate Inclusivo, voltado a pessoas com deficiência em eventos climáticos extremos. “Eu não via nada na mídia sobre pessoas com deficiência. Via notícias sobre gato, cachorro, o bendito do cavalo que subiu no telhado”, relatou. Uma das fotos que recebeu, sem data nem cidade de origem, mostrava uma senhora idosa sendo resgatada na pá de uma máquina agrícola. Ao consultar Médicos Sem Fronteiras e o coronel responsável pela Defesa Civil em São Paulo, Marta descobriu que nenhum dos dois tinha protocolo de resgate para pessoas com deficiência. “Há uma invisibilização total”, resumiu. Para ela, acessibilidade não é caridade, é direito constitucional, e beneficia todo mundo, de crianças a gestantes, de idosos a qualquer pessoa temporariamente ferida.
Uma perspectiva trans, indígena e antiespecista
Mar Revolta, artista transdisciplinar e travesti não binária, e Okara Yby, pesquisadora indígena do povo Potiguara, assinam juntas este capítulo. Mar abriu com números sobre a economia fóssil: 40% de toda carga transportada por navios no mundo é combustível fóssil, contra 20% de alimentos. A indústria fóssil recebe 7 trilhões de dólares em subsídios por ano no mundo, quarenta e oito vezes mais que a energia renovável. No Brasil, são 81 bilhões de reais anuais, vinte vezes o orçamento somado do Ministério do Meio Ambiente, do Ibama e do ICMBio.
Ela questionou o discurso de “transição energética justa”, citando um comercial da Petrobras estrelado por Camila Pitanga que repete a frase seis vezes em um minuto, meses antes de a presidente da estatal declarar que energia renovável só entraria na pauta da empresa a partir de 2050. Entre 2013 e 2023, a energia eólica cresceu 19 vezes e a solar 34 vezes no Brasil, mas as emissões de gases de efeito estufa continuaram subindo, porque a produção de petróleo, gás e carvão também cresceu no mesmo período. “Não estamos vivendo uma transição energética”, afirmou. “O que a gente está vivendo é a construção de um novo nicho de mercado.”
Okara trouxe a perspectiva dos povos indígenas sobre o bem viver, o buen convivir, como prática que sempre soube conviver com diversidade de gênero e sexualidade, muito antes de isso virar pauta. Citou a liderança mapuche Moira Millán e seu conceito de terricídio, o extermínio da diversidade como o verdadeiro motor da destruição ambiental, e destacou o zapatismo como metodologia política: o movimento escreveu sua própria lei revolucionária das mulheres e, ao enviar sua primeira emissária para dialogar com a Europa, escolheu deliberadamente uma pessoa não binária. “A superação do colapso ambiental é necessariamente multiespécie”, resumiu.
Uma publicação viva
Ao longo do encontro, Tatiane, também na função de editora do livro, reforçou que adaptação climática e transição energética são respostas complementares, mas distintas, à crise climática, e que a publicação já nasce sabendo que está incompleta. “A gente já está vendo que a publicação precisa ser atualizada”, disse, ao lembrar que faltam vozes, entre elas a das comunidades ciganas, mencionada por Marta durante o encontro.
A publicação Caminhos para um Olhar Inclusivo sobre Adaptação Climática pode ser baixada aqui.
Esse foi o primeiro de uma série de webinários que o GT Gênero e Justiça Climática vai realizar para aprofundar os temas do livro. Assista a gravação completa:
