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Como as soluções baseadas na natureza podem integrar um novo pacto social e econômico

ELABORAÇÃO: Miriam Prochnow*
PUBLICADO EM: 08 de novembro de 2020
O Brasil precisa lidar com o declínio das atividades econômicas e, ao mesmo tempo, resolver os problemas ocasionados pela emergência climática. A solução para essas crises é a conservação da natureza que proporcione uma retomada verde e socialmente inclusiva.

A humanidade enfrenta uma de suas piores crises. Em meio a pandemia da Covid-19, que já matou mais de 260 mil pessoas no Brasil, o país precisa lidar com o declínio das atividades econômicas e, ao mesmo tempo, atuar de forma eficiente para resolver os problemas ocasionados pela emergência climática. A solução para todas essas crises passa pela conservação da natureza, uma vez que novas pandemias poderão surgir em razão da destruição dos ambientes naturais.

Uma retomada econômica sem considerar os limites da natureza, o uso sustentável dos recursos naturais, mas também a inclusão social, certamente agravará a situação. Precisamos estimular e ajudar a construir um novo pacto social, no qual a equidade de gênero, o combate ao racismo e a proteção da natureza sejam questões centrais e inegociáveis. Essa nova economia deve reafirmar alguns valores: democracia, busca da inovação, respeito aos direitos humanos, à diversidade, às minorias, à vida e à biodiversidade e às futuras gerações. 

É urgente apostar nas Soluções Baseadas na Natureza (SBN), isto é, inspiradas na natureza e que integram objetivos sociais, econômicos e ambientais. Pensar o território com olhar de drone e visão de libélula: do alto, com a complexidade exigida e onde cabem não somente os atores existentes em um território, mas também a própria natureza.

Soluções desse tipo incorporam as iniciativas sustentáveis existentes e consideram a qualidade e segurança alimentar, a proteção, restauração e regeneração de ecossistemas, a proteção da biodiversidade, a proteção e uso racional dos recursos hídricos e o desenvolvimento e implementação de energias limpas e renováveis.

Já existem diversos exemplos de Soluções Baseadas na Natureza em diferentes áreas. Os desafios são manter, consolidar e ampliar tais projetos, bem como replicá-los e adaptá-los a outras regiões.

Entre as várias ações que podem contribuir para essa mudança, estão:

  • buscar e direcionar investimentos públicos já existentes para iniciativas sustentáveis;
  • repensar as políticas públicas, atrelando a concessão e liberação de créditos (agrícolas, imobiliários, infraestrutura etc.) ao novo pacto social verde;
  • incentivar e fomentar o cumprimento da legislação ambiental e a implantação de paisagens sustentáveis (Cadastro Ambiental Rural – CAR, Programa de Regularização Ambiental – PRA, Bolsa Restauração);
  • criar um sistema de financiamento e crédito para que propriedades e imóveis rurais se tornem sustentáveis, desinvestindo em atividades e equipamentos altamente emissores de carbono;
  • capacitar a assistência técnica para um olhar integrado que considere a paisagem, a biodiversidade, os recursos hídricos e a proteção do solo como essenciais para a atividade agrossilvopastoril.

Já existem investimentos sociais privados bem sucedidos que podem e devem ser replicados. Por exemplo, o Projeto Matas Legais, uma parceria entre a empresa Klabin e a ONG Apremavi. Desde 2005, a iniciativa já atendeu 1.807 famílias/propriedades e plantou 1.695.568 mudas de árvores nativas. Ao todo, o programa envolve 16.500 ha de florestas nativas conservadas, 1.500 ha em regeneração natural, 512 ha restaurados com plantios de mudas nativas. Trata-se de um projeto altamente replicável.

Nesta encruzilhada civilizatória, é urgente debater qual é a contribuição do setor privado, para além do seu cercado. É o caso da Natura, ao anunciar investimento de US$ 800 milhões nos próximos dez anos para ajudar no desmatamento zero da Amazônia, com ações em toda sua cadeia produtiva. Mais do que isso, em uma visão de emergência climática, temos de saber quanto de seu lucro o setor privado está disposto a investir. Tal discussão exige um desprendimento muito maior do que o praticado até agora.

Para trazer essas soluções de investimentos, já existem algumas ferramentas que podem ser úteis. Entre elas, estão iniciativas de diálogo que envolvem vários setores, como o Diálogo Florestal, o Diálogo do Uso do Solo e a Coalizão Brasil Clima, Florestas e Agricultura. Estes são espaços propícios para acordos e criação de novos projetos.

Existem também os portais de transparência, que ajudam a monitorar as ações do governo, das empresas e do terceiro setor. Um exemplo é o Portal Ambiental da Apremavi, onde são cadastradas as atividades de restauração realizadas pela instituição, possibilitando seu acompanhamento público.

Outra ferramenta bem-vinda é a construção de plataformas como o Mapa do DF Sustentável, que mapeou as mais diversas iniciativas relacionadas à sustentabilidade no Distrito Federal.

Por que não criar uma plataforma também de ideias – um espaço onde as pessoas possam cadastrar suas ideias de investimentos verdes, fomentando a inovação e a criatividade? E, por fim, por que não construir uma plataforma de engajamento, a fim de cada um expressar seus compromissos com o futuro sustentável? A pergunta é simples: que tipo de investimento eu posso fazer enquanto empresa ou cidadão para ajudar a construir um presente e um futuro sustentáveis?

* Sobre a autora: Fundadora, atual vice-presidente da Associação de Preservação do Meio Ambiente e da Vida (Apremavi) e membro do GT de Gênero e Clima do Observatório do Clima.

“Este conteúdo não representa, necessariamente, a opinião do Observatório do Clima ou de qualquer um de seus membros.”

Planos Setoriais: Energia

Esta nota técnica analisa a relação entre energia, gênero e mudança do clima no âmbito do Plano Decenal de Energia 2030. Este documento não representa, necessariamente, a opinião do Observatório do Clima ou de qualquer um de seus membros.

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