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Mulheres e a recuperação econômica: a questão de gênero no centro das soluções

ELABORAÇÃO: Aline Souza*

PUBLICADO EM: 30 de agosto de 2021

O enfrentamento à desigualdade de gênero pode diminuir também as desigualdades sociais e ajudar na recuperação econômica do país

Mulheres e a recuperação econômica

A relação entre desigualdade de gênero e desigualdade social, para muitos, parece não ter conexão. No entanto, discutir e evidenciar esses contextos sociais é importante, assim como ter coragem de enfrentar o que as origina e as organiza como opressão: o capitalismo enquanto modelo de sociedade. Antes que se espantem, já respondo: não tenho as respostas. No entanto, existem várias saídas possíveis que, se combinadas, poderão dar certo.

Alguns dados recentes divulgados pela Oxfam em sua série intitulada “Nós e as desigualdades”, de 2021, mostram alguma evolução no Brasil nos últimos tempos, mas ainda estamos engatinhando. Quando paramos para refletir sobre as possibilidades de uma nova economia e os direitos humanos, alguns dados chamam atenção.

  • 86% das pessoas entrevistadas acreditam que é importante reduzir a desigualdade de renda entre ricos e pobres, e o Estado tem um papel fundamental para realizar isto por meio de políticas públicas concretas;
  • 56% das pessoas concordam em pagar mais impostos para financiar políticas sociais (creches públicas, postos de saúde e amplo apoio à universalização dos serviços públicos). Essa opinião é compartilhada por 25% a mais de pessoas do que em 2019, e é a primeira vez que isso acontece desde o início do monitoramento;
  • A pesquisa apontou um aumento de 13% na opinião das pessoas que acreditam em um sistema progressivo de tributação, ou seja, de taxar mais os ricos, se comparada à opinião dada em 2017 (71%) e em 2020 (84%);
  • 52% das pessoas acreditam que a linha da pobreza está acima de uma renda de R$1.000 e que abaixo disso é onde mora a pobreza. Ou seja, uma renda entre 1 mil e 2 mil é ser pobre no Brasil. Entretanto, o Banco Mundial indica uma renda de R $300 como o limite para a linha da pobreza.

O que faz alguém ser “bem de vida”?

No geral, as pessoas mapeadas na pesquisa da Oxfam se acham pobres, apesar de receberem até cinco salários mínimos. A pesquisa mostrou também uma relação entre educação, fé e religião: os três são pré-requisitos para os brasileiros obterem uma melhora de vida. Em anos anteriores da série, em 2017 e 2019, a fé religiosa era algo muito decisivo na melhora de vida. A educação não aparecia citada nas respostas dos entrevistados. Hoje, na opinião das pessoas, depois de educação, fé e religião, temos a saúde como item de avanço na melhora da vida.

Gênero, raça e autonomia econômica

Ainda segundo a pesquisa da Oxfam:

  • Mais de 75% da população entrevistada admite a existência do racismo institucional;
  • 86% discordam que o papel da mulher é ficar em casa cuidando dos filhos. Ufa!

Por outro lado, parece que ainda não caiu a ficha para a relação intrínseca entre as desigualdades sociais e o “papel da mulher”. Melhor dizendo, entre o empobrecimento econômico de um país e suas famílias com a divisão desigual do trabalho doméstico e com a escassez de tempo feminino.

Um debate recente realizado pela Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (CEPAL), a ONU Mulheres e a Fundação Friedrich Ebert (FES Brasil) apresentou um relatório interessante sobre como o papel das mulheres desempenhado com as atividades do cuidar – a elas atribuídas – é preponderante para a economia capitalista. O documento discute a dimensão de gênero no contexto da abordagem do grande impulso (ou Big Push) para a Sustentabilidade no país.
Baseado em evidências, o relatório oferece subsídios para a formulação de uma estratégia de recuperação econômica com igualdade e sustentabilidade. A promoção, a partir de investimentos sustentáveis, de oportunidades de emprego e renda para as mulheres, consideradas na sua diversidade, e da melhoria da disponibilidade e da qualidade de serviços de cuidado, libera o tempo das mulheres e contribui para sua autonomia econômica.

Algumas mulheres representantes de ministérios da economia dos países latinos convidados para o debate ressaltaram que a recuperação econômica com sustentabilidade deve envolver a igualdade de gênero nas políticas públicas e na condução econômica dessas políticas.

Alguns dos principais pontos debatidos:

  • Emprego: é importante subverter o entendimento de gerar emprego. Não se trata apenas de fomentar setores da construção civil. Abrir empregos nos setores da indústria, transporte e energia renovável para que as mulheres possam ocupá-los é fundamental. De acordo com os dados apresentados, 1 a cada 100 pessoas da construção civil é mulher e menos de 12% das mulheres trabalham na área de energia renovável. Ou seja, precisamos com urgência “feminilizar” os empregos desenvolvendo estratégias e capacitação para que mulheres possam ocupar espaços de tecnologia e empregos verdes;
  • Escassez / pobreza de tempo feminino: é apontado como a principal causa das desigualdades econômicas, pois enquanto as mulheres, que são as principais responsáveis pela geração de renda dos lares do Brasil e da América Latina, forem sobrecarregadas com trabalho doméstico, elas não terão tempo para investir em capacitação profissional. Assim, a mobilidade social de suas famílias não ocorrerá, perpetuando assim o quadro de desigualdades;
  • No plano de descarbonização de frotas urbanas para transporte público de muitos países na América Latina ocorre a falta de mão de obra e na Costa Rica as mulheres são minoria na condução de veículos de transporte público (somente 4,5% são mulheres aptas para conduzir os veículos e 95% são homens). A maioria de empresas de frotas urbanas são familiares;

Uma nova consciência para uma nova economia

O mundo todo está conectado e precisamos entender como viver nesse planeta de modo responsável. É preciso uma completa transformação no estilo de desenvolvimento econômico e de fato transformar o que a gente conhecia até então como política pública emancipatória. Não podemos mais voltar ao que éramos antes da pandemia. Ou seja, precisamos inverter a lógica adotada até hoje e promover uma recuperação de caráter novo. A crise climática não é uma crise do futuro. A chave para a sustentabilidade econômica é promover empregos para as mulheres.

A igualdade entre homens e mulheres em direitos e deveres passa por essa mudança de mentalidade e de prática. Se outrora o combate à corrupção era uma prioridade para os brasileiros, hoje essa prioridade é emprego, saúde e combate ao racismo, já podemos perceber que a população é capaz de enxergar de modo diferente alguns aspectos sociais que não via antes, como mostrou a pesquisa da Oxfam. Sem dúvidas, boas lideranças e instituições responsáveis que informam e conduz ao esclarecimento fazem a diferença. Um país afirmativo é um país que almeja um futuro inclusivo e próspero a longo prazo.

 

*Aline Souza é jornalista, ativista dos direitos humanos e comunicadora no Instituto Democracia e Sustentabilidade (IDS Brasil)

“Este conteúdo não representa, necessariamente, a opinião do Observatório do Clima ou de qualquer um de seus membros.”

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