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Narrativa Shanenawa do canoeiro — Edital Sementes

PUBLICADO EM: 06 de setembro de 2021

A história enviada por Maria, mulher do povo indígena Shanenawa, da aldeia Morada Nova, sobre troca de saberes e comunicação com a natureza.

Narrativa Shanenawa

“Narrativa Shanenawa do canoeiro”

por Maria Abijicelia Brandão da Silva Shanenawa - Organização dos Professores Indígenas do Acre (OPIAC) | para Edital Sementes

Sou Maria Brandão da Silva. Meu nome na língua indígena é Matsianeh, pertenço ao povo Shanenawa, moro na aldeia Morada Nova. Sou artesã, professora da minha aldeia. 

E vou contar a história que sempre ouvi minha vó falando, me ensinando, contando para mim e para os outros meus primos, quando era noite. Se chama Poá.

Essa história é assim: no meio da floresta, tinha uma família, e eles passavam muita necessidade. Eles saíam para pescar, caçar e não encontravam nada. Eles junto com sua família moravam no meio da aldeia, e no meio da aldeia outras pessoas moravam também. Eles saíam para pescar, para caçar, mas não traziam nada para sua casa. E seus filhos continuavam com fome. Mas teve um dia que eles saíram pra caçar e encontraram um sapo. 

Esse sapo se chama “canoeiro”, o nome dele. Então eles conheceram ele, e ele falou assim. “Olha, a partir de hoje, vocês nunca mais vão passar fome. Eu te dou essa palheta para vocês e vocês vão colocar a panela no fogo, colocar água e vão mexer com essa paieta. Quando vocês mexerem a paieta, vocês vão pensar em algo. Se é peixe, vão pensar no peixe e vão mexendo com eles. Quando vocês forem mexendo, vai aparecendo o peixe para vocês. Mas tem uma coisa. Vocês não podem dizer pra ninguém.”

Então eles voltaram pra sua casa, chegando lá fizeram fogo, colocaram a panela dentro, colocaram água e começaram a mexer. Então aconteceu o que o sapo tinha falado. Eles continuaram ali mexendo e no momento que eles iam mexendo, ia aparecendo. Então a partir daquele dia, eles nunca mais passaram fome. Mas toda vez que eles iam mexer, colocavam a paieta dentro da panela e mexia, mexia. Aí teve um dia, que eles já tavam tão acostumados, que se esqueceram. Aí teve um dia que um parente foi lá passear neles, perguntou o que é que eles faziam que não tavam mais passando fome. Aí a mulher foi lá, “Ah, o canoeiro me deu essa paieta, agora nós não passamos mais fome”. No outro dia, quando ela começou a mexer a paieta na panela, não apareceu mais nada. Porque o canoeiro tinha feito um segredo pra eles, tinha feito a magia porque eles passavam necessidade.

Então, temos que aprender a confiar uns nos outros. Às vezes as pessoa nos ajudam para fazer o nosso bem, quer nos ajudar para nos fazer bem, quer nos ajudar para ver a nossa felicidade, pra nós viver em paz com nossas famílias, nossos filhos, mas acabamos falando nosso segredo. Então essa é a história do canoeiro.

O Edital Sementes tem como objetivo destacar narrativas que interligam questões de gênero e clima e que normalmente não encontram vazão nos espaços institucionais. São relatos orais transcritos, narrativas tradicionais, poéticas e outros que, ao serem reconhecidos, ajudam a adiar o fim do mundo.

Alguns dos materiais passaram por edição ou adaptação para melhor clareza e melhor leitura, às vezes reduzindo seu tamanho original.

“Este conteúdo não representa, necessariamente, a opinião do Observatório do Clima ou de qualquer um de seus membros.”

Gênero e Clima

A história dos jabutis — Edital Sementes

Meu nome em português é Iracilda Gomes de Araújo Shanenawa. Na língua indígena me chamo Samy. Sou do povo Shanenawa, moro na Aldeia Morada Nova. Eu vou contar a história do Jabuti, que na história conta que o jabuti andava em bando.

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