Olinda Yawar e o cuidado com a terra | Mulheres que Restauram

Olinda Yawar e o cuidado com a terra | Mulheres que Restauram

#MulheresQueRestauram

Olinda Yawar e o cuidado com a terra | Mulheres que Restauram

PUBLICADO EM: 22 de novembro de 2021

“Trabalhar com restauração é realmente uma questão de gostar, de pensar num futuro, porque o que temos visto é que não temos outra opção,” essa é a mensagem de Olinda Yawar, indígena que estrela o quinto episódio da Série Mulheres que Restauram.

 

Olinda Yawar mora na Terra Indígena (TI) Caramuru – Paraguaçu, localizada na região Sul da Bahia. “Essa é uma região da Mata Atlântica, mas tem sofrido muito com as mudanças climáticas. A precipitação de chuva que antigamente era muito mais intensa, agora está cada vez mais escassa”, observa Olinda que, em 2016, junto com o marido, Samuel Wanderley, e apoio dos caciques e anciãos da comunidade, criou o Projeto Kaapora.

O projeto nasceu de uma vontade da comunidade indígena de restaurar o próprio território, um território que se encontrava bastante degradado e morto no sentido de biodiversidade“, relembra a indígena que vê o processo de restauração da terra ancestral também como um resgate do espírito protetor da comunidade.

A TI tem ao todo 54.100 hectares dentre os quais 27 hectares, antes cobertos majoritariamente por pastagem, são cenário para o projeto piloto de replantio da cobertura vegetal, preservação dos remanescentes de floresta e implantação de apiários, meliponários e outros sistemas agroecológicos e de uso sustentável.

A primeira coisa que fizemos quando começamos a trabalhar aqui foi cercar a área, porque nós temos vizinhos que criam gado. Depois começamos a plantar árvores nativas”, fala Olinda. No total já foram plantadas mais de 2 mil árvores na área e outras tantas plantas regeneraram sozinhas.

Segundo Olinda os resultados da restauração já são visíveis: “temos percebido que os animais estão retornando, que as plantas estão começando a se virar sozinhas, e que as sementes de árvores estão começando a nascer espontaneamente. Também começaram a aparecer Psitacídeos que vêm todas as tardes e ficam na castanheira”.

Além da própria comunidade, quem também acompanha os resultados são os grupos de estudantes da região que visitam a área em busca de ensinamentos sobre o cuidado com a terra. “Trazer estudantes é importante porque temos como mostrar para eles o que está aparecendo de novo na mata”, afirma Olinda ao esperar que outras pessoas comecem a fazer o mesmo dentro dos seus espaços: “não temos outra opção; a opção é cuidar da terra. Cuidando da terra nós também estamos cuidando da gente”.

Em 2019, a Comunidade Indígena Pataxó Hãhãhãe decretou a criação da primeira Área de Proteção Ambiental no âmbito da TI, chamada de APA Kaapora em função do projeto.

O quinto capítulo da Série Mulheres que Restauram conta a história da indígena Olinda Yawar, criadora do Projeto Kaapora. Fotos e imagens: Yawar Filmes.

Mulheres que Restauram

Este é o quinto capítulo da série Mulheres que Restauram. O episódio de estreia foi ao ar no Dia da Terra, com a história de Ercília Felix Leite. O segundo episódio, lançado no dia 24 de setembro, trouxe a história de Dona Helena. O terceiro episódio compartilhou a trajetória de Edilaine Dick no dia 13 de outubro. E o quarto episódio, lançado no dia 28 de outubro, lançou a história de Josefa Machado Neves.

Mulheres que Restauram é uma iniciativa da Apremavi na Década das Nações Unidas para a Restauração de Ecossistemas, com apoio do GT de Gênero e Clima do Observatório do Clima, e tem o objetivo de divulgar histórias de mulheres protagonistas na restauração e no planejamento de propriedades e paisagens, como forma de conscientizar a sociedade sobre a importância da atuação feminina na mitigação da crise do clima e promover o plantio de árvores nativas e a recuperação de áreas degradadas.

“Este conteúdo não representa, necessariamente, a opinião do Observatório do Clima ou de qualquer um de seus membros.”

Gênero e Clima

Planos Setoriais: Energia

Esta nota técnica analisa a relação entre energia, gênero e mudança do clima no âmbito do Plano Decenal de Energia 2030. Este documento não representa, necessariamente, a opinião do Observatório do Clima ou de qualquer um de seus membros.

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Planos Setoriais: Energia

Planos Setoriais: Energia

#NotaTécnica

PLANOS SETORIAIS: ENERGIA

ELABORAÇÃO: IZANA RIBEIRO, LÍGIA GALBIATI, NARA PEROBELLI E RODOLFO GOMES
PUBLICADO EM: 18 de novembro de 2021

 

Acesse a íntegra do documento aqui.

Planos setoriais

1. SUMÁRIO EXECUTIVO

  • Os impactos das mudanças climáticas atingem de forma e intensidade diferentes os diversos grupos da sociedade. 
  • As questões energéticas (produção, consumo, mercado de trabalho) também são refletidas e vivenciadas de forma diferente por mulheres ao redor do mundo.
  • O PDE 2030 (Plano Decenal de Energia 2030), como um instrumento de auxílio para o alcance das metas de redução, mitigação e adaptação às mudanças do clima, deve abordar e incluir a questão de gênero em seu desenvolvimento.
  • Contudo, a relação entre energia, gênero e mudança do clima está ausente do PDE, um dos principais documentos de planejamento do setor energético brasileiro. É fundamental a inserção desses temas para o enfrentamento justo da problemática do clima no país.

2. APRESENTAÇÃO

A Política Nacional sobre Mudança do Clima (PNMC), instituída em 2009 pela Lei nº 12.187, oficializou o compromisso do Brasil com a redução de emissões de gases de efeito estufa. Além disso, por meio do Decreto nº 7.390/2010, revogado pelo Decreto nº 9.578/2018, foram considerados alguns planos de ação e setoriais para auxiliar no alcance das metas de redução, mitigação e adaptação às mudanças do clima. 

Nesse contexto, é necessário identificar como as questões de gênero estão inseridas nas políticas setoriais do clima no Brasil. Para isso, busca-se realizar um diagnóstico dos planos setoriais, objetivo principal das Notas Técnicas – Planos Setoriais. Elas verificam se existem e, em caso afirmativo, como se apresentam as questões relativas a gênero e a populações étnico-raciais nos seguintes planos:

    • Plano de Ação para Prevenção e Controle do Desmatamento na Amazônia Legal – PPCDAm;
    • Plano de Ação para Prevenção e Controle do Desmatamento e das Queimadas no Cerrado – PPCerrado;
    • Plano Setorial de Mitigação e de Adaptação às Mudanças Climáticas para a Consolidação de uma Economia de Baixa Emissão de Carbono na Agricultura – Plano ABC;
    • Plano Setorial de Redução de Emissões da Siderurgia;
  • Plano Decenal de Expansão de Energia – PDE.

No presente trabalho, será feita a análise do Plano Decenal de Expansão de Energia (PDE). Como o nome já indica, esse documento apresenta as perspectivas para o setor no período de dez anos. Ou seja, o atual PDE, publicado em 2021, realiza uma prospecção de médio prazo para os próximos dez anos (por isso se chama PDE 2030). Ademais, o PDE é atualizado anualmente desde 2006.

Antes da análise, apontaremos a relevância da energia (em suas diversas formas) na sociedade, traremos alguns casos que ilustram o impacto da energia especificamente na vida das mulheres, e apresentaremos algumas definições que conectam energia, mudanças climáticas e gênero. Depois, analisaremos o PDE 2030 de acordo com a metodologia criada para a análise dos planos setoriais. Por fim, apresentaremos os resultados, as suas respectivas implicações e algumas recomendações para a inserção prática do tema de gênero nas políticas setoriais.

 

3. INTRODUÇÃO

A energia é um bem essencial, com potencial de promover o desenvolvimento econômico e a qualidade de vida das pessoas. Ela está na base da própria construção material da vida, tanto nas tecnologias quanto nas suas infraestruturas que permitem o uso dos serviços de energia dos quais precisamos.

O uso de energia para usufruirmos dos serviços energéticos permeia todo nosso cotidiano: está presente na iluminação, na comunicação, no transporte e na refrigeração. Não se restringe apenas a acender uma luz, assistir a um programa ou refrigerar alimento para conservá-lo por mais tempo. A lâmpada, a tevê e a geladeira precisaram de energia para serem fabricadas, embaladas e transportadas até nós. A lâmpada precisou de vidro, de plástico, de metal, de componentes eletrônicos, os quais por sua vez precisaram ser produzidos, embalados e transportados para a fábrica produzir a lâmpada. Para serem transportadas, precisam de infraestrutura como estradas, ruas, ferrovias, hidrovias, gasodutos, linhas de transmissão e distribuição de eletricidade. Note, portanto, que tudo isso configura um grande e emaranhado sistema técnico e social (sociotécnico), cada um condicionando o outro.

Mas, afinal, como as questões de gênero se relacionam com energia? Ao redor do mundo, os padrões de gênero são refletidos nos comportamentos e nas práticas relacionadas com a produção e o consumo de energia. Ao mesmo tempo, essa produção e esse consumo são experimentados de formas diferentes, por exemplo, por mulheres, homens (gênero binário) e outras múltiplas identidades de gênero (não binário).

Danielsen (2012) constata que a pobreza energética tem o rosto de mulher, embora Reddy et al. (2000) tragam uma visão mais ampla, e acertada do nosso ponto de vista, de que esse é o rosto da pobreza, sendo a energética apenas uma de suas dimensões. Mesmo que homens e mulheres sejam afetados e sofram com a pobreza energética, as mulheres são desproporcionalmente mais impactadas. Suas demandas, pontos de vista e participação têm sido, persistentemente, excluídas do exercício da política ao longo do tempo. 

As consequências da marginalização da mulher, ao tratar-se de suas demandas de energia, são graves. Danielsen (2012) cita alguns exemplos desses efeitos, sobretudo ao considerar o tempo empregado na coleta de biomassa (como lenha, gravetos, galhos) para ser queimada nos fogões das residências: a saúde das mulheres e meninas é precária, as oportunidades para ganho e geração de renda são mínimas, há a restrição das interações sociais e políticas, entre outras consequências adversas (Quadro 1). Essas condições reforçam a exclusão da mulher dos espaços nos quais ela deveria ocupar para reivindicar seus direitos.

Quadro 1: As teias do ato de cozinhar

Fatma Mziray, tanzaniana de 38 anos, cozinhava as três refeições diárias para sua família em um fogão a lenha tradicional, seguindo o ritual de tantas outras mulheres de sua região e de tantas outras partes do mundo. 

Tais fogões, normalmente, estão dentro das cozinhas e não possuem chaminés. Ela tinha que coletar grandes quantidades de lenha todos os dias como combustível para o café da manhã, almoço e jantar. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), a poluição do ar dentro de cozinhas, como a da família de Fatma, pode ser cem vezes mais alta do que o limite permitido de poluição de partículas finas. 

As consequências, infelizmente, são mortais. Cerca de 4 milhões de pessoas morrem prematuramente a cada ano por doenças causadas pela poluição doméstica do ar, segundo a OMS. As mulheres e crianças são as mais expostas a esses ambientes, devido à “divisão” sexual doméstica do trabalho. 

Chegou à Fatma, por meio de outra mulher de sua região, a notícia de um fogão a lenha que faz a queima de uma forma mais eficiente e por um preço que cabe em seu bolso. Ela comprou e, segundo ela própria, “agora, com o fogão a lenha melhorado, a mesma quantidade de lenha [que usava para fazer as refeições em um dia] pode durar até três semanas”. Sobre o impacto na sua família de 8 pessoas desde que passou a usar o novo fogão, diz que “ninguém tem ficado doente ou ido ao hospital por causa de gripe”. Para saber mais sobre a história de Fatma, clique aqui (em inglês).

Ainda concernente às mulheres, segundo Oparaocha e Dutta (2011), a pobreza energética é um problema que afeta mulheres e meninas, de forma desproporcional em relação aos homens, principalmente em países em desenvolvimento. Reddy et al. (2000, p.44) definem pobreza energética como a ausência de escolhas em acessar serviços energéticos adequados, confiáveis, de qualidade e seguros para dar suporte ao desenvolvimento econômico e humano (Quadro 2).

Quadro 2: Ilustrando o conceito de acesso à energia

Entendemos como acesso à energia mais do que o seu acesso exclusivamente físico, ou seja, mais do que ter conexão a uma fonte de eletricidade (rede elétrica ou gerador local) ou ter à disposição um combustível (gás de cozinha, álcool, querosene, vela, lenha e outros). 

Trata-se do acesso a serviços energéticos adequados, por um preço acessível, confiáveis, de alta qualidade, seguros e ambientalmente benignos. A iluminação é um exemplo de serviço energético de que precisamos, que pode ser prestado por lâmpadas elétricas, velas, lenha, candeeiros, lanternas e outros. Já a qualidade, o preço, o impacto ambiental (poluição, por exemplo) e essas outras características do serviço energético de que precisamos para iluminar um local são diferentes para cada uma dessas tecnologias e fontes de energia.

Para dar um exemplo, indicamos alguns depoimentos sobre os impactos que a chegada da iluminação elétrica trouxe para algumas mulheres africanas que não tinham eletricidade em suas casas (sem esquecer da declaração da Fatma no Quadro 1, para o caso do serviço de cozimento dos alimentos):

“Antes, era difícil ir para fora de casa com a lanterna a querosene por causa do vento.”

“[Agora posso] Coletar água à noite.”

“A lanterna solar permite que eu faça mais cestas, o que me faz ter lucro maior.”

“Meu filho na sétima série está entre os 10 melhores alunos agora porque ele pode estudar [mais à noite].”

“Agora professores me dizem que minha criança é a melhor, então estou feliz.”

“Eles [filhas e filhos] não têm mais desculpas para não estudar desde que tem luz depois de escurecer.”

As histórias são ao mesmo tempo inspiradoras e inquietantes. Para saber mais, leia nessa avaliação de impacto. Os depoimentos acima foram retirados dela.

Para abordar esse problema, Oparaocha e Dutta (2011) tecem recomendações para a formulação de políticas públicas que incluam a questão de gênero e reduzam a pobreza energética, tais como: investir em tecnologias direcionadas às demandas energéticas de mulheres em situações de pobreza; promover a geração de renda, a produtividade e, consequentemente, o valor do trabalho dessas mulheres (Quadro 3); incluir e documentar análises de gênero em cada etapa de um projeto; desenvolver a capacidade das mulheres de trabalhar e se engajar com questões de gênero no setor de energia.

Clancy, Skutsch e Batchelor (2003) ainda reforçam que as ferramentas utilizadas por planejadores do setor de energia não incorporam os aspectos de gênero, sendo um desafio para a aplicação prática das recomendações.

Quadro 3: Quando a abordagem de gênero em energia expande a visão tradicional

Centenas de milhões de pessoas não têm acesso à eletricidade no mundo e iluminam suas casas com velas, lenha, candeeiros, lanternas ou nem isso.

Duas mulheres resolveram se juntar a outras para criar uma empresa social e levar eletricidade a essas casas na África, atuando na redução da pobreza energética através do empoderamento das mulheres locais e da geração de renda. Elas recebem capacitações e orientações para comercializarem equipamentos abastecidos por energia solar (como lâmpadas, ventiladores, rádios, carregadores de celular), fogões eficientes a lenha e outros produtos para suas comunidades. 

De acordo com o projeto, já são mais de 4,3 mil mulheres e 700 homens que se transformaram em comerciantes, beneficiando uma população de mais de 1,7 milhão de pessoas em 2020. Essa capilaridade só se tornou possível graças à aposta feita nas redes de contato social das mulheres, criando outras redes de credibilidade e confiança em todo esse trabalho. Quando perguntadas sobre o que a palavra empoderamento significava para elas, algumas das respostas foram: “significa uma mulher recebendo lucros por causa do negócio que ela está fazendo”, “significa que eu posso pagar minhas despesas de forma que eu posso progredir na vida” e “eu sei de algo que talvez outra pessoa não saiba, então falar para elas sobre isso é empoderador”.

Logo, é fundamental incluir a temática de gênero no planejamento energético e em seus planos setoriais para que esse seja formulado de forma justa e correta. Buscando analisar a presença da pauta de gênero no planejamento energético brasileiro, selecionou-se o Plano Decenal de Expansão de Energia 2030 para a realização de uma varredura inicial e identificação de termos relacionados à questão de gênero.  

O Plano Decenal de Expansão de Energia (PDE) é um documento informativo elaborado pela Empresa de Pesquisa Energética (EPE), com o apoio da Secretaria de Planejamento e Desenvolvimento Energético (SPE/MME) e da Secretaria de Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (SPG/MME). 

O PDE é publicado anualmente e seu objetivo principal é indicar as perspectivas do setor de energia para um período  de 10 anos. É importante ressaltar que se trata de um planejamento do setor e não deve ser considerado como um plano estático. Ou seja, há indicações e sinalizações sobre a oferta e a demanda de energia que visam apoiar as decisões dos principais agentes do setor (EPE/MME, 2021). 

O PDE 2030 é desenvolvido com base nas dimensões do planejamento energético e considera as esferas econômicas, estratégicas, sociais e ambientais do país em suas projeções e cenários. No âmbito social e ambiental, a expansão da oferta de energia deve ser feita considerando o amplo acesso à energia e os aspectos socioambientais (EPE/MME, 2021). A análise aqui proposta verifica se o Plano Decenal de Expansão de Energia contempla, de fato, as questões sociais (nas quais as relações de gênero estão inseridas). Mais especificamente, esta Nota Técnica investiga se a questão de equidade de gênero está presente no planejamento energético brasileiro (em seus planos setoriais atuais). 

Ademais, de acordo com o Decreto nº 9.578, de 22 de novembro de 2018, o PDE é considerado pela Política Nacional sobre Mudança Climática (PNMC) como um dos planos setoriais de mitigação e adaptação às mudanças climáticas. Em outras palavras, o PDE precisa incorporar a temática do clima em suas análises, visando “reduzir a vulnerabilidade dos sistemas naturais e dos humanos” (Brasil, 2018). 

Embora não seja o foco deste documento, entendemos como necessário deixar os seguintes registros e definições sobre a interconexão entre mudança do clima e equidade de gênero, nas quais a energia tem um papel importante, para que esses temas e suas articulações não sejam tratados de forma reducionista:

  • Afinal, qual é a relação entre energia e mudança climática? Sabe-se que a temperatura média global está aumentando e um dos motivos é a grande quantidade de gases de efeito estufa na atmosfera. O principal emissor desses gases, no mundo, é o setor de energia. Tanto na exploração e produção de combustíveis fósseis e poluentes (petróleo e derivados, carvão, gás natural) quanto na sua queima na geração de eletricidade, no transporte, na indústria e no comércio. Portanto, é necessário e urgente colocar em prática uma transição energética global com o uso predominante de eficiência energética e de fontes renováveis e menos poluidoras (energia solar, eólica, hídrica e maior uso de biomassa). 
  • Na arena política sobre mudança do clima e equidade de gênero, é insuficiente dar às mulheres responsabilidades centrais sem desafiar tanto as estruturas sociais quanto o poder simbólico das masculinidades. Falar em inclusão sem explicitamente compreender e alterar tais estruturas e simbolismos é mudar (ou dar algumas concessões) para manter as coisas como estão;
  • Políticas e programas de adaptação e mitigação climática focados exclusivamente em mulheres devem considerar também homens e outros gêneros não binários em situação de vulnerabilidade, além de considerar outros marcadores sociais, como raça e classe.

4. MÉTODOS

A metodologia deste estudo consiste em realizar uma busca com palavras-chave e termos que representam a questão de gênero nas publicações oficiais do setor de energia. O método é simples e objetivo, como mostra a Figura 1 abaixo. Vale dizer que a busca não é feita apenas pelo termo definido, mas pelo contexto no qual ele se insere.

Em resumo:

  • 1ª Etapa: Inicialmente, selecionou-se o PDE 2030 (Plano Decenal de Expansão de Energia 2030) para análise por constar na Política Nacional sobre Mudança do Clima como plano de ação de mitigação e adaptação às mudanças climáticas, e por ser um dos mais recentes publicados. Posteriormente, mais planos poderão ser analisados.
  • 2ª Etapa: O próximo passo consistiu na definição e busca pelos termos selecionados. Os termos, ou palavras-chave, foram escolhidos com base na metodologia aplicada na Nota Técnica “Indicativos de Gênero em Políticas e Programas Climáticos na Esfera Federal” (Indicativos de Gênero em Políticas e Programas Climáticos na esfera Federal – Gênero e Clima | OC).

São eles: 

gênero, mulher/mulheres, menina/meninas, LGBT, igualdade, equidade, criança, raça/racial/raciais, negro/negra, quilombo/quilombola/quilombos/quilombolas, racismo, étnico/étnica, etnia, comunidade, indígena/indígenas, vulnerável/vulneráveis, refugiado, imigrante, periferia/periférica, favela, baixa renda, menor renda, interseccionalidade; 

  • 3ª Etapa: Cada termo, na sua forma singular ou plural quando cabível, foi buscado no PDE 2030. O plano possui 453 páginas e é composto por 11 capítulos: Premissas Gerais, Demanda de Energia, Geração Centralizada de Energia Elétrica, Transmissão de Energia Elétrica, Produção de Petróleo e Gás Natural, Abastecimento de Derivados de Petróleo, Gás Natural, Oferta de Biocombustíveis, Eficiência Energética e Recursos Energéticos Distribuídos, Análise Socioambiental e Consolidação dos Resultados. 
  • 4ª Etapa: Os resultados completos foram compilados em uma planilha que também pode ser consultada no Anexo 1 desta NT. 

 

5. RESULTADOS

O Quadro 4 e a Figura 2 abaixo apresentam os termos e o número total de vezes nas quais essas palavras foram identificadas. Há também alguns exemplos de passagens (excertos) que ilustram o contexto do termo empregado.

Termos

Número total

Excerto

gênero

0

mulher/mulheres

0

menina/meninas

0

LGBT

0

igualdade

0

equidade

0

criança

0

raça/racial/raciais

0

negro/negras

0

quilombo/quilombolas

11

“Ressalta-se que, desde a concepção, os empreendimentos de transmissão são planejados para desviar das comunidades quilombolas. Porém, permanece o desafio de identificar essas comunidades na fase de planejamento.”

racismo

0

étnico/étnica

0

etnia

0

comunidade

19

“O tema foi considerado relevante na região Nordeste, em função das interferências de empreendimentos eólicos na dinâmica territorial e nos modos de vida de comunidades locais, por meio de restrições de acesso e uso a áreas antes utilizadas para subsistência e lazer.”

indígena/indígenas

26

“Especificamente na região norte, é fundamental que sejam efetuados esforços adicionais de gestão em casos que envolvem a implantação de LTs próximas a terras indígenas, considerando as sensibilidades particulares dos povos indígenas e respeitando seus direitos.”

vulnerável/vulneráveis

0

refugiado

0

imigrante

0

periferia/periférica

0

favela

0

baixa renda

0

menor renda

4

“Contudo, cabe ressaltar que o aumento da conectividade também contribui para a mobilidade, facilitando o acesso ao transporte, inclusive individual, mesmo para quem não tem a propriedade dos meios de transporte. Isso tende a aumentar a locomoção de pessoas, inclusive de pessoas de menor renda e de maior idade.”

interseccionalidade

0

Quadro 4. Resumo dos resultados encontrados.

Planos Setoriais

6. CONCLUSÃO

O Plano Decenal de Expansão de Energia 2030 possui um capítulo dedicado à análise socioambiental. Apesar da abordagem socioambiental, a questão de gênero não foi identificada em nenhum capítulo do plano. Os termos encontrados são, em sua maioria, aqueles relacionados aos impactos ambientais, tema mais tratado no setor de energia. 

A Empresa de Pesquisa Energética (EPE), que elabora tecnicamente os Planos Decenais de Expansão de Energia (PDE), ligada ao Ministério de Minas e Energia (MME), tem realizado esforços ao longo dos últimos anos para aumentar a base de dados de indicadores e de análises nos diversos setores da área energética, inclusive socioeconômicos e ambientais. 

No entanto, ainda há uma dupla lacuna importante no instrumento de planejamento de médio prazo, que é o PDE, e de longo prazo, que é o Plano Nacional de Energia (PNE): uma é de diagnóstico multidisciplinar da interligação entre energia e tais dimensões, para a qual entrariam indicadores e análises também de ordem sociológica e antropológica, por exemplo; e a outra é de projeção dos planos sobre essas dimensões socioeconômicas e socioambientais,  capaz também de incorporar tais dimensões como metas a serem alcançadas. 

Dentro do preenchimento dessas duas lacunas, as questões de gênero deveriam estar presentes em suas diversas faces (raça, classe, etnia, territórios e outros). 

Sabe-se que o setor energético é um dos componentes de transformação social, ambiental e econômica que, para ocorrer, precisa de outros esforços. Mas isso não significa que deva se furtar a um olhar mais abrangente e em diálogo com os outros instrumentos de planejamento e de políticas econômicas, industriais, sociais, habitacionais, alimentares, de saúde e de educação, para citar apenas algumas. Os múltiplos benefícios e impactos negativos da energia ultrapassam os limites do próprio setor.

Dessa forma, a produção e o uso da energia possuem diversas conexões com os diversos aspectos da sociedade brasileira e mundial. A relação energia, gênero e mudança do clima é uma dessas conexões que precisam ser abordadas, especialmente porque o Plano Decenal de Expansão de Energia (PDE) é o plano setorial de mitigação e adaptação da Política Nacional sobre Mudança Climática (PNMC).

7. IMPLICAÇÕES E RECOMENDAÇÕES

As implicações e recomendações desse estudo inicial acerca do Plano Setorial (PDE) e questões de gênero são:

  • As políticas públicas, quando elaboradas e realizadas sem atentar às particularidades dos segmentos da população ou do setor, podem deixar um conjunto de pessoas e de setores fora dos impactos que tais políticas querem promover. O mesmo é válido para o exercício do planejamento energético, inclusive quando não se consideram as diferentes particularidades de gênero.
  • Quando o planejamento energético (e as políticas a ele atreladas) está dissociado dos impactos sobre os objetivos de desenvolvimento do país, ele perde conexão com a própria sociedade, ficando conectado apenas com a parte técnica do setor energético. 
  • As questões socioeconômicas e socioambientais são ainda encaradas como externalidades, isto é, como resultados indiretos do planejamento energético. Contudo, como as políticas são desenhadas e implementadas sem levar em conta as evidências dessas duas esferas, os resultados para a população e o meio ambiente ficam muito distantes daquilo que foi imaginado inicialmente.
  • Recomenda-se a análise mais aprofundada das questões de gênero no planejamento do setor energético, identificando as injustiças, quais partes da sociedade são mais afetadas e quais procedimentos podem ser feitos para reduzir tais impactos desproporcionais.      
  • Recomenda-se incluir mulheres no diálogo, de forma perene, no setor de energia. Um exemplo de sucesso é a MESOL (Rede Brasileira de Mulheres na Energia Solar), que promove a equidade de gênero, conscientiza, informa e dá suporte para as mulheres em um setor predominantemente masculino.
Referências

Brasil, Lei nº 12.187, de 29 de dezembro de 2009.

Brasil, Decreto nº 7.390, de 9 de dezembro de 2010.

Brasil, Decreto nº 9.578, de 22 de novembro de 2018.

CLANCY, J. S.; SKUTSCH, M.; BATCHELOR, S. The gender-energy-poverty nexus: Finding the energy to address gender concerns in development. Disponível em: <https://ris.utwente.nl/ws/portalfiles/portal/5134277/Clancy99gender.pdf%0Ahttp://gamos.org/publications/Gender – energy – poverty nexus – DFID CNTR998521 – 2003 – TechReport.pdf>.

DANIELSEN, K. Gender equality, women’s rights and access to energy services – An inspirational paper in the run-up to Rio+20. Disponível em: <https://www.kit.nl/gender/wp-content/uploads/publications/1975_Gender Rights and Energy Report final.pdf>.

OPARAOCHA, S.; DUTTA, S. Gender and energy for sustainable development. Current Opinion in Environmental Sustainability, v. 3, n. 4, p. 265–271, 2011. 

REDDY, A. K. N. et al. Chapter 2 – Energy and Social Issues. In: World energy assessment: energy and the challenge of sustainability. New York: United Nations Development Programme, 2000. p. 22. 

Instagram Rede Brasileira MESol, 2021. Disponível em: <https://instagram.com/redebrasileiramesol>. Acesso em: novembro 2021.

“Este conteúdo não representa, necessariamente, a opinião do Observatório do Clima ou de qualquer um de seus membros.”

Planos Setoriais: Energia

Esta nota técnica analisa a relação entre energia, gênero e mudança do clima no âmbito do Plano Decenal de Energia 2030. Este documento não representa, necessariamente, a opinião do Observatório do Clima ou de qualquer um de seus membros.

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Relato “Somos parte da solução” — Edital Sementes

“Somos Parte da Solução” é um relato enviado por Vera Lúcia Aguiar, ressaltando o protagonismo e conhecimentos tradicionais das mulheres indígenas na roça, na região do Alto Rio Negro, e em especial de sua mãe, mulher do povo Dessano. Este é um produto do Edital Sementes.

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Josefa e a felicidade de morar na floresta | Mulheres que Restauram

Josefa e a felicidade de morar na floresta | Mulheres que Restauram

#MulheresQueRestauram

Josefa e a felicidade de morar na floresta | Mulheres que Restauram

PUBLICADO EM: 30 de outubro de 2021

“Nós somos mulheres e estamos aqui para restaurar”, essa é a meta de vida de Josefa Machado Neves, presidente da Associação das Mulheres Produtoras de Polpas de Frutas de São Félix do Xingu, e estrela do quarto episódio da Série Mulheres que Restauram.

 

Eu moro no meio da floresta. Minha casa é no meio da floresta. Eu sou rodeada de árvores e sou muito feliz pelo meu lugarzinho”, é assim que Josefa Machado Neves recebe as pessoas na sua propriedade, o Sítio Alvorada, localizado em São Félix do Xingu, no Pará.

Quando ela e o marido compraram os mais de 2 alqueires de terra, eles transformaram a paisagem, antes coberta de capim, em uma plantação de cacau. Abandonando a produção de gado, no início eles investiram só no cacau, porque não tinham a visão da importância da floresta como um todo. “Quando nós compramos a terra, não existia o incentivo de cultivar a floresta. Na época eu cansei de cortar os pés de acerola, eles nasciam e eu cortava, eu nem ligava para a acerola”, comenta Josefa.

De uma parceria da Associação das Mulheres Produtoras de Polpas de Frutas (AMPPF), organização que Josefa preside, com o Instituto de Manejo e Certificação Florestal e Agrícola (Imaflora), é que veio a mudança. “Eu mudei da água para o vinho depois que ouvi falar sobre os Sistemas Agroflorestais (SAFs). Eu fiz cursos para aprender como faz e hoje eu cuido dos pés de acerola com o maior zelo. Eu cuido que nem se cuida de uma criança, porque para mim é uma grande valia as frutas que elas me dão”, diz ela orgulhosa de toda a produção que tem no sítio.

Além de cacau e acerola, Josefa cultiva outras espécies nativas e frutíferas como açaí e cupuaçu. Estes frutos são processados e vendidos como polpas que são usadas, em sua maioria, como complemento da merenda das escolas da região. E é disso que a família de Josefa, e várias outras famílias associadas, tiram o sustento: “eu sempre falo para as mulheres da AMPPF que nós não precisamos derrubar a floresta para podermos ganhar dinheiro. Nós tiramos o nosso sustento do meio da floresta, que também nos traz saúde”.

Além do processamento dos frutos para extrair a polpa, Josefa também aprendeu a processar as sementes e a produzir mudas nativas e geralmente troca espécies com os membros da associação. “As vezes eu tenho uma semente crioula, ou uma muda, que o outro não tem, então nós trocamos para todo mundo ter um pouco de tudo, e nós conseguirmos atender a demanda juntos”, informa Josefa que também se diz orgulhosa e maravilhada com as mulheres que se apegaram ao projeto e à associação: “nós somos mulheres e estamos aqui para restaurar, somos restauradas. Nós não amolecemos com pouca coisa. Nós estamos aqui pro que der e vier, nós estamos aqui prontas e firmes no batente.

E foi através do Programa Florestas de Valor, do Imaflora, que a AMPPF conseguiu apoio para se fortalecer institucionalmente e também um suporte para ampliar sua escala de comercialização. O programa, que atua prioritariamente nas regiões da Calha Norte, Rio Negro e São Felix do Xingu, tem como objetivo valorizar as populações tradicionais e os agricultores familiares e impulsionar atividades agroextrativistas na Amazônia, além de apoiar a estruturação de cadeias de valor e facilitar a sua inserção em mercados, que valorizam sua sustentabilidade e origem.

O quarto capítulo da Série Mulheres que Restauram conta a história da presidente da Associação das Mulheres Produtoras de Polpas de Frutas, Josefa Machado Neves. Fotos: Makro Comunicação e Imaflora. Vídeo: Apremavi.

Mulheres que Restauram

​Este é o quarto capítulo da série Mulheres que Restauram. O episódio de estreia foi ao ar no Dia da Terra, com a história de Ercília Felix Leite. O segundo episódio, lançado no dia 24 de setembro, compartilhou a história de Dona Helena. E o terceiro episódio, que estreou no dia 13 de outubro, compartilhou a trajetória de Edilaine Dick.

Mulheres que Restauram é uma iniciativa da Apremavi na Década das Nações Unidas para a Restauração de Ecossistemas, com apoio do GT de Gênero e Clima do Observatório do Clima, e tem o objetivo de divulgar histórias de mulheres protagonistas na restauração e no planejamento de propriedades e paisagens, como forma de conscientizar a sociedade sobre a importância da atuação feminina na mitigação da crise do clima e promover o plantio de árvores nativas e a recuperação de áreas degradadas.

“Este conteúdo não representa, necessariamente, a opinião do Observatório do Clima ou de qualquer um de seus membros.”

Gênero e Clima

Planos Setoriais: Energia

Esta nota técnica analisa a relação entre energia, gênero e mudança do clima no âmbito do Plano Decenal de Energia 2030. Este documento não representa, necessariamente, a opinião do Observatório do Clima ou de qualquer um de seus membros.

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Infográfico “Por que gênero e clima?” ganha versão para colorir

Infográfico “Por que gênero e clima?” ganha versão para colorir

#Infográfico

Infográfico “Por que gênero e clima?” ganha versão para colorir

ELABORAÇÃO: Jamille Nunes
PUBLICADO EM: 28 de outubro de 2021
Nova versão do infográfico é voltada para introduzir a discussão com crianças e contextos pedagógicos.
Infográfico para colorir

O infográfico “Por que gênero e clima?” sempre se pretendeu um material em constante construção – um ponto de partida -, na medida em que não encerra a discussão de gênero e clima, e está aberto a receber novas contribuições e melhorias.

Com o objetivo de ampliar o debate em torno do tema, especialmente para pessoas que já vivem as consequências das mudanças climáticas, o GT de Gênero e Clima do Observatório do Clima criou uma versão do infográfico para colorir. Você pode baixá-lo gratuitamente aqui.

Durante o lançamento oficial do infográfico, em julho, com a presença das convidadas Selma Dealdina (CONAQ) e Sineia Wapichana (CIR), ficou evidente a importância desse novo material. Ambas expuseram o potencial didático que ele poderia desempenhar em seus territórios ou em escolas.

Neste mês das crianças, valorizamos capacidade transformadora e sensível delas,  resgatada pelas palavras de Selma.  “Esse material é lindo e colorido, as crianças vão se amarrar pra caramba. Se o objetivo é conversar com elas, é importante que as crianças pintem”, Selma declarou.

Aqui em Roraima, trabalhamos muito com o desenho, não só para que as pessoas possam ter melhor entendimento, mas a gente tem uma questão entre os povos indígenas, que às vezes não sabem ler e escrever (em português),” pontuou Sineia, à época.

A nova versão pode ser usada em salas de aula, atividades pedagógicas e encontros formativos.

“Este conteúdo não representa, necessariamente, a opinião do Observatório do Clima ou de qualquer um de seus membros.”

Planos Setoriais: Energia

Esta nota técnica analisa a relação entre energia, gênero e mudança do clima no âmbito do Plano Decenal de Energia 2030. Este documento não representa, necessariamente, a opinião do Observatório do Clima ou de qualquer um de seus membros.

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Poesia “Mulher de pescador” — Edital Sementes

Poesia “Mulher de pescador” — Edital Sementes

#EditalSementes

Poesia “Mulher de pescador” — Edital Sementes

PUBLICADO EM: 16 de agosto de 2021

A poesia abaixo foi enviada por Daniele Almeida de Carvalho, bióloga e Mestra em Biodiversidade de Ambientes Costeiros. A leitura foi feita por Tatiane Matheus.

Mulher de Pescador

"Mulher de Pescador"

por Daniele Almeida de Carvalho | Para Edital Sementes

Mulher de pescador

Acordar, cozinhar e lavar
Cuidar do bolo, marisco, ovo
Peixe, espinha, escama
Arrumar a cama
“Ô mulher a rede arrebentou
Me ajude aqui faz favor”
 
Pisar na lama
Caranguejo, panela
Dias, semanas, meses
Pisar na lama,
Caranguejo, defeso
“Tem que ir atrás do seguro”
Mar vem, mar vai
Tempestade
Água no chão, na comunidade
Perdemos muito, não tudo

 “O mar não tá pra peixe”

Cozinha siri, camarão, bolinho de peixe
Pelo menos hoje
Ninguém dormiu com fome 

Festa na comunidade
As crianças vão ter que ajudar
Arma a barraca
Vem turista, vai tainha
Essa semana dinheiro não vai faltar

“Hoje tem reunião na Colônia, cê vai?”
“Queria, mas tô cansada, as crianças não param
Ainda tive que fazer bico e reparo”

Ó minha Nossa Senhora dos Navegantes
Há de chegar o dia 
Em que vão me olhar
Não como mulher de pescador
Mas como trabalhadora do mar

Ó minha Nossa Senhora da Esperança
Proteja meu esposo, 
meus filhos, 
meu lar

Ó Iemanjá
Nos dê força pra continuar
Pra quando meu dia chegar
Eu possa partir 
Ouvindo o barulho do mar

O Edital Sementes tem como objetivo destacar narrativas que interligam questões de gênero e clima e que normalmente não encontram vazão nos espaços institucionais. São relatos orais transcritos, narrativas tradicionais, poéticas e outros que, ao serem reconhecidos, ajudam a adiar o fim do mundo.

Alguns dos materiais passaram por edição ou adaptação para melhor clareza e melhor leitura, às vezes reduzindo seu tamanho original.

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Gênero e Clima

Planos Setoriais: Energia

Esta nota técnica analisa a relação entre energia, gênero e mudança do clima no âmbito do Plano Decenal de Energia 2030. Este documento não representa, necessariamente, a opinião do Observatório do Clima ou de qualquer um de seus membros.

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Relatos “Fragmentação de territórios e justiça climática” — Edital Sementes

Relatos “Fragmentação de territórios e justiça climática” — Edital Sementes

#EditalSementes

Relatos “Fragmentação de territórios e justiça climática” — Edital Sementes

PUBLICADO EM: 20 de outubro de 2021

Maíra Azevedo traz relatos da roda de conversa virtual sobre territórios e justiça climática, transmitida pela “Salve o Rio Jaguaribe”.

Narrativa Shanenawa

Clique aqui para assistir a roda de conversa.

O encontro aconteceu em um momento crítico da pandemia, às vésperas de o Brasil alcançar a triste estatística dos 100 mil mortos pela pandemia provocada pelo novo coronavírus, em agosto de 2020.

Estiveram presentes a bióloga Maíra Azevedo, a liderança religiosa e cuidadora do Quilombo Quingoma Mãe Donana; a escritora e advogada Maria Alice; Verônica Raquel, do Movimento Nosso Quilombo; e a artista-pesquisadora e permacultora Clara Domingas.

Essas representações também compõem a Convergência pelo Clima, espaço de diálogo que reúne diversas outras organizações e representações da sociedade soteropolitana, onde atuam para propor medidas de adaptação climática nas políticas públicas, olhando para seus territórios. 

Essas mulheres falaram sobre conexão, identidade e formação da comunidade local. E discutiram, também, a ideia de aproximação ou conectividade entre seus territórios. “A gente tem que ter um respeito muito grande a essas comunidades tradicionais, a nossas comunidades tradicionais. Porque nós somos berço da cultura, da fé, do amor, do acolhimento,” ressalta Mãe Donana.

Acesse aqui os relatos na íntegra, da conversa “Fragmentação de territórios e justiça climática”.

O Edital Sementes tem como objetivo destacar narrativas que interligam questões de gênero e clima e que normalmente não encontram vazão nos espaços institucionais. São relatos orais transcritos, narrativas tradicionais, poéticas e outros que, ao serem reconhecidos, ajudam a adiar o fim do mundo.

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Gênero e Clima

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Relato “Mulheres indígenas, suas visões sobre mudanças climáticas” — Edital Sementes

Relato “Mulheres indígenas, suas visões sobre mudanças climáticas” — Edital Sementes

#EditalSementes

Relato “Mulheres indígenas, suas visões sobre mudanças climáticas” — Edital Sementes

PUBLICADO EM: 18 de setembro de 2021

Elizangela Baré, da Terra Indígena Cue-due Marabitanas, enumera as demandas dos povos indígenas no enfrentamento às mudanças climáticas.

Narrativa Shanenawa

Meu objetivo é atuar de forma coletiva entre as diferente regiões, para podermos abordar temas relevantes em nosso  território, como por exemplo Plano de Gestão Territorial e Ambiental das Terras Indígenas, Sustentabilidade, Mudanças Climáticas, Segurança Alimentar, Artesanatos sempre de forma coletiva, atualmente precisamos dialogar o tema mudanças climáticas. No território Rio Negro, isso é muito visivél os efeitos de mudanças climáticas, estão fazendo partir da vida dos povos originários, cada ano que se passa elas precisam achar estratégias de resgurdar os conhecimentos delas, achar caminhos e ações novas de organizar a sua existência, como por exemplo suas roças, novos cultivos e maneiras de cuidar do conhecimentos adquiridos pelo seu povo para que não desaparecam e assim guardar e resguardar as linhagem de sua ancestralidade como amor e resistência, para que a sua geração possa continuar existindo acompanhado pela mãe natureza. A nossa bandeira de luta é Terra e Cultura. 

Além disso quero compartilhar e demonstrar aos povos indígenas, que estamos passando por um processo de adaptação e variabilidade climática, nos últimos anos o sistema tradicional dos povos indígenas tem enfrentado evidências de mudanças no clima, que alteram suas atividades, onde até esse momento não se tem estutos de como será feito o desenvolvimento de politicas de enfretamento climático na região do Rio Negro.

O Edital Sementes tem como objetivo destacar narrativas que interligam questões de gênero e clima e que normalmente não encontram vazão nos espaços institucionais. São relatos orais transcritos, narrativas tradicionais, poéticas e outros que, ao serem reconhecidos, ajudam a adiar o fim do mundo.

Alguns dos materiais passaram por edição ou adaptação para melhor clareza e melhor leitura, às vezes reduzindo seu tamanho original.

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Gênero e Clima

Planos Setoriais: Energia

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Relato “Somos parte da solução” — Edital Sementes

Relato “Somos parte da solução” — Edital Sementes

#EditalSemente

Relato “Somos parte da solução” — Edital Sementes

PUBLICADO EM: 15 de outubro de 2021

O relato abaixo foi enviado por Vera Lúcia Aguiar, ressaltando o protagonismo e conhecimentos tradicionais das mulheres indígenas na roça, na região do Alto Rio Negro, e em especial de sua mãe, mulher do povo Dessano. A leitura foi feita por Ellen Acioli, amazônida, ativista climática e defensora socioambiental.

Narrativa Shanenawa

“Somos parte da solução”

por Vera Lúcia Aguiar Moura - DAJIRN/FOIRN | para Edital Sementes

Venho de uma família onde as mulheres, mães, avós, tias e primas são criativas, conhecedoras e protagonistas quando se fala de trabalho, cuidado e defesa.

Minha mãe veio do povo Dessano e casou-se aos 19 anos com um homem do povo Tukano, trouxe consigo seus conhecimentos repassados pelo pai e principalmente pela mãe: modo de cuidar a família, sustentar, cultivar a terra, plantar, consumir e liderar as mulheres ao trabalho para o bem comum.

Cuidar e estar atenta para ajudar o meu pai e a comunidade no cuidado e orientação, no modo de convivência com meio ambiente, é o ponto forte dela.

Ela é mais voltada no preparo e cultivo da maniwa de modo tradicional. Além do trabalho da roça, ele já vai plantando árvores frutíferas na área de trabalho, esse trabalho todo é da iniciativa dela. O trabalho todo que ela faz é do conhecimento que ela recebeu da mãe e que ela compartilha com as demais da comunidade.

Tudo ela vê o quanto é o necessário para o consumo da família e prevê se destruir tudo para o trabalho terá consequências mais tarde. E assim incentiva a nós filhas e as demais no cuidado, no trabalho e no consumo de comidas tradicionais.

Quando se fala na questão de sustentabilidade as mulheres entra na conversa da comunidade e elas sempre dão a sua opinião de como deve trabalhar e ou cuidar e minha mãe é que lidera, sempre leva o trabalho na questão de usufruir os materiais que tem na natureza pra produção e para uso do dia a dia sem precisar desmatar desenfreadamente, tudo conforme a necessidade.

Tudo isso é a prática de anos e anos da comunidade Maracajá/Rio Tiquié, na região do Alto Rio Negro e assim continua nos mesmos ritmos de trabalho e cuidado.

O Edital Sementes tem como objetivo destacar narrativas que interligam questões de gênero e clima e que normalmente não encontram vazão nos espaços institucionais. São relatos orais transcritos, narrativas tradicionais, poéticas e outros que, ao serem reconhecidos, ajudam a adiar o fim do mundo.

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Gênero e Clima

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Edilaine Dick e a vocação de restaurar florestas | Mulheres que Restauram

Edilaine Dick e a vocação de restaurar florestas | Mulheres que Restauram

#MulheresQueRestauram

Edilaine Dick e a vocação de restaurar florestas | Mulheres que Restauram

PUBLICADO EM: 13 de setembro de 2021

No último semestre da faculdade, Edilaine Dick, que estrela o terceiro capítulo da Série Mulheres que Restauram, fez um curso de restauração de áreas degradadas que mudou sua vida. Foi ali que ela descobriu o que queria fazer: trabalhar com restauração, plantar árvores e mudar a vida das pessoas. “O amor pela causa ficou óbvio depois disso”, menciona a bióloga.

 

“Foi na infância, no sítio dos pais da minha cuidadora, que eu aprendi o amor pela agricultura e pelas coisas do interior.” Nesse mesmo sítio uma outra semente também se plantou no coração de Edilaine Dick, a personagem do terceiro capítulo da Série Mulheres que Restauram; a de quão impressionante pode ser um rio quando ele tem suas margens preservadas. “Tinha um rio na propriedade dos pais da tata, super bem preservado, e eu lembro muito bem até hoje da imagem desse rio com suas Áreas de Preservação Permanente (APPs) preservadas, da beleza das árvores e dos detalhes da natureza – era ali que a gente ia brincar e comer melancia e isso era maravilhoso”, comenta Edilaine.

Anos mais tarde, a escolha pela profissão não veio fácil, mas a certeza de querer trabalhar com pessoas, pelo bem estar dos animais e manter a conexão com a natureza a levaram a cursar biologia. Tentando se encontrar no decorrer da faculdade, Edilaine viu os olhos brilharem quando teve a oportunidade de fazer um curso sobre restauração de áreas degradadas. Quase como um sinal do destino, na mesma época, ela encontrou por acaso um colega lendo uma publicação da Associação de Preservação do Meio Ambiente e da Vida (Apremavi), o livro A Mata Atlântica e Você. “No último semestre, eu encontrei um rapaz num ônibus folheando o livro Mata Atlântica e Você. O livro era tão cheio de imagens e tinha tudo a ver com a temática da restauração que eu não pude deixar de olhar. Ele me emprestou o livro e eu imediatamente entrei em contato com a equipe para ver se podia fazer estágio. Foi assim que conheci a Apremavi”, menciona a bióloga.

Uma outra motivação que Edilane teve para se aprofundar no estudo sobre a importância da conservação e restauração de florestas foi um bate-papo rápido com a ambientalista e ex-professora da FURB, Lúcia Sevegnani (em memória). “Na ocasião, a Lúcia me fez várias perguntas que eu não sabia responder, e isso me deixou muito frustrada, mas também me impulsionou a aprender. Uma das dicas que ela me deu foi que eu procurasse a Apremavi, e foi o que eu fiz. Durante muitos anos eu quis reencontrá-la para poder responder àquelas perguntas”, comenta Edilaine que teve a chance de encontrar novamente com a professora alguns anos mais tarde durante um trabalho de campo que a Apremavi estava conduzindo na região do Campo dos Padres. Lucia Sevegnani era um ícone do ambientalismo catarinense e foi uma das fundadoras da Apremavi.

Há 16 anos na Apremavi, Edilaine trilhou uma trajetória na instituição que começou no estágio supervisionado, passou por assistência técnica e chegou à coordenação de projetos. À frente de projetos como o Araucária, que promoveu a conservação e a recuperação de remanescentes florestais e espécies-chave da Mata Atlântica entre 2013 e 2015 e teve apoio da Petrobras Ambiental, e mais recentemente o Restaura Alto Vale, que já restaurou 210 hectares em 666 propriedades e 22,8 hectares em três Unidades de Conservação, doou 300 mil mudas nativas e que tem apoio do BNDES, Edilaine põe em prática o amor pela causa.

Quando eu entrei na Apremavi nós éramos duas mulheres envolvidas nos trabalhos de campo, eu e a Miriam Prochnow, fundadora da instituição; a gente ia para todas as reuniões, todos os lugares. Na época não havia participação de mais mulheres, mas hoje eu tenho visto que as mulheres estão ganhando espaço, e que a gente tem um papel importante em ampliar a presença feminina na restauração dos ecossistemas”, comenta Edilaine12 mulheres fazem parte da equipe direta da Apremavi hoje. Elas ocupam cargos técnicos, de coordenação, administrativos e de direção. Além disso, são responsáveis por desenvolver um trabalho importante no Viveiro Jardim das Florestas, onde estão diretamente vinculadas com todo o processo de produção de mudas, insumo fundamental da restauração de ecossistemas. E isso é motivo de orgulho para Edilaine quando diz que “as mulheres da Apremavi com certeza são um exemplo de mão na massa, não só produzindo mudas, plantando árvores e restaurando a Mata Atlântica, mas também trabalhando com educação ambiental, lidando com os proprietários e desenvolvendo um trabalho mais técnico”.

Um outro momento que faz os olhos da Coordenadora de Projetos brilharem é voltar para as áreas que ela ajudou a restaurar, “quando eu volto numa propriedade que eu ajudei a planejar e vejo as florestas em estágios avançados de regeneração eu sei que o trabalho deu certo e que cumprimos a nossa missão, que é ajudar o proprietário a entender a importância da conservação das florestas e da restauração das áreas degradadas”.

Além da vocação para ser uma mulher que restaura, Edilaine também é mãe de duas crianças, o Joaquim que tem cinco anos e a Amália que tem oito meses. “Ter filhos foi uma decisão muito bem pensada, bem planejada, sobretudo porque eu sempre ficava me perguntando como conciliar o trabalho com a criação deles. Não é fácil, mas trabalhar com algo que eu gosto, que me satisfaz e que também tem uma importância fundamental para garantir o futuro deles me convence de que estou no caminho certo”, afirma Edilaine que, no auge do isolamento e do período de home office em decorrência da pandemia de Covid-19, decidiu montar um pequeno viveiro em casa e, com a ajuda do Joaquim, já produziu mais de mil mudas que foram doadas no município onde moram. Essa atividade está associada com o trabalho que realiza junto ao viveiro de mudas da APAE Renascer de Monte Carlo (SC) e que a encanta todos os dias. “Eu sou muito grata à Apremavi e ao trabalho que a gente faz justamente por isso, porque eu consigo envolver meus filhos e, sempre que possível, mostrar que através da restauração podemos construir um caminho e um futuro próspero”, diz Edilaine.

O terceiro capítulo da Série Mulheres que Restauram conta a história da Coordenadora de Projetos da Apremavi, a bióloga Edilaine Dick. Fotos e vídeo: Acervo Apremavi.

Mulheres que Restauram

Este é o terceiro capítulo da série Mulheres que Restauram. O episódio de estreia foi ao ar no Dia da Terra, com a história de Ercília Felix Leite. O segundo episódio, lançado no dia 24 de setembro, compartilhou a história de Dona Helena.

Mulheres que Restauram é uma iniciativa da Apremavi na Década das Nações Unidas para a Restauração de Ecossistemas, com apoio do GT de Gênero e Clima do Observatório do Clima, e tem o objetivo de divulgar histórias de mulheres protagonistas na restauração e no planejamento de propriedades e paisagens, como forma de conscientizar a sociedade sobre a importância da atuação feminina na mitigação da crise do clima e promover o plantio de árvores nativas e a recuperação de áreas degradadas.

“Este conteúdo não representa, necessariamente, a opinião do Observatório do Clima ou de qualquer um de seus membros.”

Gênero e Clima

Planos Setoriais: Energia

Esta nota técnica analisa a relação entre energia, gênero e mudança do clima no âmbito do Plano Decenal de Energia 2030. Este documento não representa, necessariamente, a opinião do Observatório do Clima ou de qualquer um de seus membros.

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GT de Gênero e Clima promove formação entre defensoras ambientais

GT de Gênero e Clima promove formação entre defensoras ambientais

#Informe

GT de Gênero e Clima promove formação entre defensoras ambientais

ELABORAÇÃO: Jamille Nunes, Nara Perobelli, Marina Minari, Raisa Pina
PUBLICADO EM: 29 de setembro de 2021

Curso entre defensoras ambientais e comunitárias de diferentes regiões do país conta com série de encontros para troca de saberes e fortalecimento da rede

Mulheres de contextos diversos de defesa climática, ambiental e de direitos sociais, como extrativistas, marisqueiras, indígenas, ativistas, militantes e de periferias urbanas se reúnem em momentos de formação promovidos pelo Grupo de Trabalho de Gênero e Clima do Observatório do Clima e sua rede parceira. São mulheres que atuam em organizações socioambientais da sociedade civil interessadas em promover a segurança climática.

A ideia do curso  partiu de uma das formadoras, Sarah Marques, do coletivo Caranguejo Tabaiares Resiste (PE), durante uma atividade em 2020.  Ao explicar sua motivação, ela diz: “Eu queria entender como nasce uma defensora, mas é preciso entender por elas. Por isso fiz o pedido para a gente fazer defensoras por defensoras.”

O espaço visa promover um diálogo sobre clima, com perspectiva de gênero e suas intersecções, considerando os contextos em que elas estão: suas diferentes características sociais, experiências de vida, localidades, faixas etárias  e desafios que enfrentam no cotidiano. Essa é uma atividade-piloto, dirigida a lideranças territoriais comunitárias, para fortalecer o trabalho dessas mulheres enquanto defensoras climáticas do Brasil.

São aproximadamente trinta lideranças envolvidas, com o intuito de compartilhar conteúdo em encontros virtuais semanais e temáticos. A formação é composta por oito módulos (Semear, Raízes, Tronco, Caules, Galhos, Flores, Regar, Colher), que contam com a condução de Sarah Marques, Severiá Idiorê, Xica da Silva, Miriam Prochnow e Veridiana Vieira.

defensoras ambientais

Quem apoia?

O curso é uma realização de um conjunto de organizações por meio do Grupo de Trabalho em Gênero e Clima do Observatório do Clima. São elas: Associação de Preservação do Meio Ambiente e da Vida (APREMAVI), Engajamundo, Grupo de Trabalho Amazônico (GTA), Hivos, Instituto Centro de Vida (ICV), Instituto Internacional de Educação do Brasil (IIEB), Instituto Socioambiental (ISA), Instituto Sociedade, População e Natureza (ISPN) e Rede de Cooperação Amazônica (RCA).

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Mudança de narrativas: deixando estereótipos para trás ao falar sobre gênero e clima

Mudança de narrativas: deixando estereótipos para trás ao falar sobre gênero e clima

#ProduçãoTextual

Mudança de narrativas: deixando estereótipos para trás ao falar sobre gênero e clima

ELABORAÇÃO: Jamille Nunes
PUBLICADO EM: 28 de setembro de 2021

GenderCC apresenta um guia de boas práticas para narrativas sem estereótipos ao comunicar sobre gênero e clima.

Mudança de narrativas

A rede mundial de organizações GenderCC, que agrega especialistas e ativistas em torno da justiça climática e dos direitos das mulheres, lançou um guia de princípios e boas práticas para comunicar a convergência de ambos os assuntos.

Esse material tem como objetivo ajudar a combater publicamente estereótipos: ao interligar gênero e clima, é comum que se fale apenas pela lente da vulnerabilidade. Ou, ainda, apresentar soluções sem envolver mulheres nas discussões ou na tomada de decisões.

Para avançar na pauta climática, é preciso, antes de tudo, reconhecimento de jornalistas, ativistas, atores políticos e da sociedade civil que gênero está intimamente ligado ao clima. Fazer essa conexão com responsabilidade significa identificar e deixar para trás certas narrativas prejudiciais. Se esses lugares-comuns não são abandonados, a compreensão e a busca por soluções fica comprometida.

Alguns estereótipos midiáticos ao falar de gênero e clima, apontados pelo GenderCC

  • Tratar mulheres como um grupo homogêneo, silenciando mulheres de grupos marginalizados (ou seja, sujeitas a outras opressões, como de raça e classe);
  • Enxergar a equidade de gênero e a justiça climática como assuntos separados;
  • Aderir à noção de que a equidade de gênero é um problema apenas das mulheres, e falar sobre gênero em termos binários (feminino e masculino, apenas, sem considerar pessoas que não se encaixam nessas expressões);
  • Desconsiderar o papel e a discussão sobre masculinidades ao falar da crise climática, seja em atitudes ou em configurações institucionais;

Maneiras efetivas de abordar gênero e clima, segundo o GenderCC

  • Reconhecer que existem nuances nos tópicos, apresentando contextos em gênero e clima, evitando generalizações. Uma homem ribeirinho da Amazônia sente a mudança climática diferente de uma mulher marisqueira do Nordeste, por exemplo;
  • Destacar vozes diversas de grupos e comunidades impactadas pela crise climática. Incluir uma pluralidade de experiências ajuda a combater as narrativas únicas, e um discurso engajador pelas mudanças climáticas passa por compreensão e contextos locais;
  • Usar um conceito amplo em gênero. Isso ajuda a envolver na discussão populações que normalmente vivem em lugares periféricos, têm o acesso a assistência negados e estão em maior risco, como pessoas LGBTQIA+.
  • Focar em problemas estruturais. Confundir causa e efeito é uma abordagem simplista e errônea que pode acontecer se os problemas estruturais não forem identificados. Desigualdades de gênero não são criadas pela crise climática, mas são exacerbadas por ela.

Esse guia ajudou? Compartilhe com a sua rede, com comunicadores e pessoas preocupadas com gênero e clima.

 Acesse o arquivo oficial aqui.

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Gênero e Clima

Planos Setoriais: Energia

Esta nota técnica analisa a relação entre energia, gênero e mudança do clima no âmbito do Plano Decenal de Energia 2030. Este documento não representa, necessariamente, a opinião do Observatório do Clima ou de qualquer um de seus membros.

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Projetos onde gênero, clima e oceanos se encontram

Projetos onde gênero, clima e oceanos se encontram

#ProduçãoTextual

Projetos onde gênero, clima e oceanos se encontram

ELABORAÇÃO: Jamille Nunes
PUBLICADO EM: 27 de setembro de 2021

Em encontro virtual entre GTs do Observatório do Clima, mulheres expõem intersecção entre gênero, clima e oceanos.

Narrativa Shanenawa

Ao falar de oceano e sua relação com o clima, algumas imagens se destacam no imaginário, a maioria delas envolvendo animais afetados pela ação humana. Mas as mudanças causadas no oceano afetam também a todas as pessoas, independentemente de onde elas estejam ou como sejam. 

O oceano nos provê benefícios em qualquer lugar do mundo que estejamos“, lembra Mariana Andrade, em um encontro virtual de mulheres dos GTs de Gênero e Clima e também de Oceano, do Observatório do Clima. “Reconhecer o oceano em nós e reconhecer a gente no oceano é “cultura oceânica”. É se conectar com ele morando próximo ou não da costa.”

Mariana adverte que um aspecto que aproxima os dois âmbitos – oceânico e climático – é a discussão de gênero. Embora as mulheres sejam peças-chave nas reflexões, pesquisas e soluções das crises em ambas as áreas, seus esforços são invisibilizados.

Por isso, momentos de aproximação como esse são tão importantes: servem também para reconhecer o que já está sendo feito. Neste encontro foram apresentadas algumas iniciativas que trabalham para conectar o oceano e o clima com atividades e projetos realizados por e para mulheres. Confira a seguir.

Mães do Mangue: manguezais como proteção ao aquecimento global

A campanha Mães do Mangue, realizada junto às comunidades costeiras do Pará, território onde está a maior área contínua de manguezais do planeta, mostra a importância dos mangues no controle das mudanças do clima. Seu ponto de partida são as histórias de vida das mulheres extrativistas e de suas famílias, que têm o ecossistema como lugar de orgulho e pertencimento.

Lígia Oliveira, da Purpose, uma das responsáveis pela campanha, explica que a ideia enfrentou alguns desafios. “Havia barreiras físicas: o manguezal é um ecossistema distante das pessoas. E as barreiras imaginárias: na cabeça das pessoas, o manguezal é um ambiente sujo, e elas não vêem conexão com a Amazônia. Ainda por cima, quando imaginam alguém coletando mariscos, vem a imagem de um homem.

Para fortificar uma visão positiva da vivência das mulheres no manguezal, as histórias focaram na importância da proteção do manguezal e também nas lideranças locais, para que sejam referências para a mídia ao falarem da Amazônia. A relação entre as comunidades e reservas extrativistas também foi estimulada, uma vez que as comunidades compartilham desafios semelhantes na conservação de ecossistemas marinhos e costeiros.

Dessa campanha, floresceram um sentimento de comunhão e de rede, minidocumentários e o livro “Cozinha da maré”, com receitas originárias dos manguezais. Com pratos, depoimentos e histórias, a publicação traz a memória alimentar e afetiva das mulheres extrativistas da região.

Liga das Mulheres pelo Oceano

A bióloga e conselheira da Liga das Mulheres Pelo Oceano, Natalia Grilli, também trouxe a trajetória da organização, nascida em março de 2019. Ainda que recente, a rede cresce a cada ano e abriga cada vez mais mulheres.

Em seus dois anos, já lançou campanhas digitais como o “Nossa Praia, Nossa Responsabilidade”, referente ao misterioso vazamento de óleo na costa nordestina; e mobilizou atletas de modalidades como natação, vela, surf, mergulho e vôlei para a campanha “A Gente Liga para o Oceano”, em um alerta sobre a poluição por lixo no mar.

Em uma abordagem mais artística, também trataram de temas não tão óbvios relacionados ao oceano e clima, como moda, alimentação, na campanha “Sente o clima e mergulhe nessa onda”. Fizeram episódios de podcasts, bate-papos com celebridades como Fernanda Lima, lambes e figurinhas de Whatsapp.

A Liga, atuando nas áreas de ciência, política e comunicação, integra esforços pela conservação do oceano e pela emancipação das mulheres. “Muitas vezes, as mulheres que promoviam trabalhos de conservação eram desconsideradas ou invisibilizadas nas divulgações”, lembra Natalia.

 Vozes do Mar: mulheres pescadoras

Graziela Blanco, da Reserva da Biosfera da Mata Atlântica, trouxe o projeto Vozes do Mar, para expandir e conectar vozes das pescadoras para enfrentar as mudanças climáticas.

Outro de seus objetivos é conectar as mulheres pescadoras de todas as regiões costeiras do Brasil, e assim fazer uma rede para a troca de experiências e aumento do alcance das dificuldades frente às mudanças climáticas e desigualdade de gênero.

Um trabalho em rede facilita o compartilhamento de saberes, uma vez que mulheres pescadoras têm desafios semelhantes e podem se auxiliar.

O projeto vai até 2022 e está em 4 regiões costeiras do Brasil. Atualmente, por conta da pandemia, essa rede de pesquisadoras, pescadoras e marisqueiras desenvolve suas estratégias e soluções virtualmente. E para quem quiser se envolver, ainda é possível contribuir com o projeto.

 

Você já conhecia esses projetos envolvendo mulheres, clima e oceano? Conhece outros? Conta para a gente em [email protected]

“Este conteúdo não representa, necessariamente, a opinião do Observatório do Clima ou de qualquer um de seus membros.”
Gênero e Clima

Planos Setoriais: Energia

Esta nota técnica analisa a relação entre energia, gênero e mudança do clima no âmbito do Plano Decenal de Energia 2030. Este documento não representa, necessariamente, a opinião do Observatório do Clima ou de qualquer um de seus membros.

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